Infância extendida

Me atropelo no gosto amargo de ser mimado
E ter meu brinquedo postergado por mais algumas horas.
Só precisa do meu beijo e ofereço as costas.
Fico com medo, muito medo.
E escondo tudo em um olhar triste e distante.

Acordo e tenho tudo o que quero.

Depois me vem essa culpa amarga que tira o gosto pela vida.
Telefono.
Mas não me quer de joelhos.
Sua bondade é compreensão.

Tenho tudo o que quero novamente.

Daimon

Estou olhando para todos os meus demônios com paciência. Não estou utilizando a velha lei da física, apostando que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar, criando assim novas novas entidades para tomarem o lugar das antigas. Hoje eu começo a entender meus gostos e ver neles muita coisa enterrada, sufocada por anos e anos. Ainda não entendo porque preciso tanto de atenção ao mesmo tempo que não consigo conviver com isso. Porque quero as pessoas perto e longe ao mesmo tempo.
Tenho comido merda nesses últimos dias, enquanto me são oferecidos só manjares. Já não tenho mais paciência para isso.
Mergulho.

Cu

"Depois de amanhã:
cu terá acento"

Queria lembrar o nome do gênio que escreveu isso.
Fórmulas e conteúdos.
A noção do self
e de toda essa merda
psicologizante, até se dizer chega

Controle?
Só o óbvio.
Tão óbvio.
Mas não vemos nada.
Apenas nos preparamos para o vendaval
Alojados no castelo de cartas da razão.

O ciúme vai corroer todo meu vocabulário burocrático,
técnico
e o caralho.

Deus dá risada de todos esses grotescos que escolhemos como muleta.
Descartes, Kant, Hegel.
Tudo uma grande piada.

Deus fuma maconha e passa rasteira em Rimbaud perneta.
Toutes les monstruositè violent les gestes atroces d'Hortense.
Higiene das raças.
Esfolo tudo.
Reich estava errado.
O ponto máximo da dureza do meu pau é agora.
Enfie no cu todos esses gráficos.

Burroughs tem uma arma apontada para si,
lá no inferno.
"Confie em mim", diz o diabo, todo trêmulo.
Enquanto Joan prepara o elenco para a cena de William Tell,
com um monte de velhos com mal de parkinson.

Quisera eu ter enfiado minha cabeça na limpeza do carro do meu pai
Só para dar uma volta no quarteirão
Como dita a classe média.

7

Aquele bêbado na praça tinha razão. Olhava para o espelho que tinha nas mãos e exclamava em alto e bom som, como só os bêbados conseguem, que ele via olhos maravilhosos. Quando se vê a maravilha dos próprios olhos o mundo parece se ajeitar como o cosmo grego. Tudo em harmonia. Depara-se com a perfeição. E essa perfeição que se percebe em tudo o que é imperfeito me faz subir pelas entranhas uma falta de ar que engasga. A vida vai transbordar através da minha garganta a qualquer segundo.
Olho com outros olhos essa pele e esse cheiro que me diz tanto. Olho o cheiro e morro um pouco. Pequena morte. Foram anos para apurar os sentidos a esse ponto. Anos para deliciar esse transmutar-se da alma, que se espalha por esses quartos. Engasgo, me refaço com um gosto mais forte. Lambo-lhe o rosto, esperando que veja que não sou nada além desse corpo que palpita e quer morrer mais um pouco.
Seu nome explode em rostos familiares, em sorrisos e em cumprimentos. Mas isso não dá conta nem da superfície. Essa superfície que desbravo com minhas narinas, como um cão farejador. As curvas são douradas, mas esse dourado é difícil de se ver. Requer treino, prazeroso sim, mas que exige tempo para que a visão se abra no meio da testa e que se sinta essa pureza transcendente.
Não escolho as palavras e atropelo meus sentimentos todos sobre o seu colo. Uns nos outros. Tudo sai pra fora com esse jeito bobo e prolixo de respirar cada momento. Redescubro que respiro.
Pauso e olho. Miro para dentro desses olhos fechados e vejo o mundo com outras cores.
Para te ver mulher eu tive que matar um pouco da criança. Olhos maravilhosos.
Dilato as pupilas.
As veias todas se dilatam.

Rio

Me traga o som do rio
Para apaziguar essa angústia
Tão pequena, tão mesquinha
Tão robusta

O que é isso?
É a vida
Numa linda cicatriz
Estampada na barriga
Num joelho de menino
Debutando uma ferida

Me traga o som do rio
Para eu me confortar nas delícias
Desses dedos alérgicos
Que me esvaem em carícias

Expurgo o que fere
Para renascer mais velho
Em um abraço cada vez maior
Maior
Maior.
Não gosto muito de "citações filosóficas", pois elas sempre me parecem empobrecedoras, me lembram um pouco auto-ajuda. Acho que isso tem a ver com o fato de eu ter lido a tese hegeliana sobre a história da filosofia no primeiro semestre da faculdade (que eu terminei agora! êêêêêê!). Mas nesses últimas dias duas citações têm se mostrado muito oportunas. A primeira eu li no imã de uma geladeira (!): "Pessoas normais pensam em coisas, pessoas inteligentes pensam em idéias, pessoas mesquinhas pensam em pessoas" (Platão). Me vejo sendo esses três tipos de pessoa, e isso me ajuda muito no que um amigo meu chama de "orientação". A segunda é do Nietzsche (O Eterno Retorno): "Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vez e sempre escoará outra vez - , um grande minuto detempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo. E então encontrarás cadda dor e cada prazer e cada amigo e inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez, a inteira conexão entre as coisas." É ótimo perceber-se dentro desse eterno retorno e saber situar-se aí, tirar proveito de forma inteligente desse contínuo de forças que se estendem no tempo infinito. Triste é esperar Godot, cometer as mesmas bobagens, alimentar as mesmas esperanças sem se dar conta no papel que temos em tudo isso. A frustração é inequívoca nesses casos. Brecht, mais uma vez nos abençoe. Amém.

Ritmo

Desliga-me disso tudo. De tudo isso em conflito dentro de mim.
De tudo o que me machuca.
E me deixa aqui deitado.
Ouvindo o dia inteiro essa música que eu tenho tudo para não gostar.
Ritmos, diferentes. As músicas tocam em ritmos variados.
Não muda a cadência.
Estranhamente tudo soa bem.

Hilda Hilst

A Obscena Senhora D. olhava para seu amante e perguntava o que era tudo. Tudo. Não entendia nada, tudo causava estranheza. Sexo, os olhos, as pernas, o ir e vir. Seus sessenta anos não assegurava certeza alguma, só dúvidas e mais dúvidas. Ela olhava para o amante de longa data e não sabia quem ele era. A Senhora D é de uma tristeza gigante. É horrível olhar com toda atenção e não ver nada. É triste. E as pessoas assim se condenam a uma vida triste. Não reconhecem as coisas iguais e nem diferenciam as diferentes.

Hilda Hilst entrou em minha vida como uma curiosidade, por alguém ter mencionado pornografia e poesia na mesma frase. Coloquei meus pés nessa água e fui sugado para dentro. Logo eu estava fazendo a iluminação de uma montagem de um texto dela. "Nada é por acaso". Não, esse não é o nome da texto, mas o provável nome do capítulo da minha vida que Deus tem dirigido no momento. A peça era "Estar sendo ter sido".

A grana gasta no jantar comemorativo da estréia da peça foi maior do que o cachê que faturei nas poucas apresentações que se seguiram, ali no Oficina.

Amo Hilda Hilst por saber que eu não a suportaria de perto. Amo essa distância que deve haver entre nós e nossos ídolos. E amo essas coisas opostas que nos ligam durante muito tempo. Por uma vida.

Aprendi a me ver livre de venenos. Bebendo leite toda hora por causa do cálcio. Evitando café. Largando o THC, o álcool. Fiz isso na hora que algo em mim me falou para fazer isso. Hilda Hilst desaprovaria tudo isso. Tenho certeza. Não o fato de eu fazer o que meu coração manda, mas desfrutar essa sobriedade que tem se mostrado mais alucinógena do que qualquer coisa. Eu mergulhei dentro de mim e descobri monstros e heróis. Figuras que não acreditava que existiam. Tirei tudo para fora. Chorei como uma criança por dias, destilando tudo o que eu sentia. Vi um monstro horrível que fere, vi também chagas enormes, que não sabia que existiam. Fiz tudo isso quando me vi necessitado, como alguém que se converte apenas no momento da dor. E não tenho nenhum pudor em dizê-lo. Eu sou isso, humano. E sei que são poucas as pessoas que realmente podem lidar com um rosto humano sem as carnes. Na maioria das vezes todos correm para o castelo com tochas na mão, exigindo a vida do monstro.

A Senhora D. é um monstro em um castelo. No vão da escada.

Conheci um editor de seus livros. Ele me falou que, todos os dias, eles, o editor e a escritora/poeta, bebiam e choravam. Isso me lembra minha família. Eles bebem e choram. E me cobram por não ligar. Justo eles, que nunca me ligaram. Que só cobram. É lógico que nenhuma das minhas tias bêbadas escreve como Hilda Hilst. Acho que não, a não ser que o façam em segredo. Mas acho que chegando em casa elas só conseguem se deitar e dormir um sono triste. Bêbado. Elas mostram o rosto purulento sem nenhum pudor. E eu viro o rosto. Sem nenhum tipo de remorso. Pois quando eu me olho no espelho eu sei quem está do outro lado. E sei que essa pessoa é vacinada.

Fera

Fera.
Grita sem parar, já cansada, mas insistente. Corre, besta, sangue ressecado por entre os dentes amarelos e afiados. Carne podre no estômago. Corre, besta, sempre. Sem parar. Cansada, mas insistente. Corre por entre campos, enormes, gigantescos, sem tamanho. Corre, besta, apressada. Para para respirar. Sempre cansada, mas insistente. Corre, pois foi isso que lhe foi ensinado. Pelas palavras, pelos grunhidos, pelos gestos. Pelo dizível, que insistia-se em indizível. Pelas feras mãe e pai. Pelo covil onde disputava nacos de carne com outras feras. Todas iguais e vítimas de suas próprias bestialidades. Grita. Corre. Para. Os campos são vastos. Para debaixo de uma árvore. Relaxa. A fome de carne e sangue apazigua rápido. Aguça o faro. Sente odores esquecidos. Agita-se. Seus pêlos caem. Ajeita a coluna. Estica-se. Transforma-se em homem. Depois em criança.
Já não é mais o camelo.
Já não é mais o leão.
Mata o dragão e queima suas escamas.
Criança.
Ela ri.
Fera.

História Real

Ele a leva para passear no começo do namoro. Uma confeitaria. Eles compram doces. Ele, com sua mania irritante de não perder nunca a piada, pede pra que ela cheire sua torta, simulando estranheza. Ela o faz. Recebe então uma tortada de leve no nariz. Ela chora. Diz que está em um momento difícil. Ele fica pasmo. Não esperava essa reação. Imaginava um sorriso, ao menos.
Ela conta para suas amigas o ocorrido. Elas não acreditam que ele fez isso.
Ele conta para seus amigos o ocorrido. Eles não acreditam que ela caiu nessa.
Os amigos sempre tomarão essas posições. Os amigos dele são amigos dele. As amigas dela são amigas dela. Independente do que aconteça, de quem leva ou quem dá a tortada.
Então eles sabem que existem coisas que não podem ser partilhadas. Eles aprendem as diferenças. E continuam indo na confeitaria.

Pixel

Me pergunta se está pixelada.
Ficamos impacientes, tentando nos ajustar.
Se mostra.
Tão linda.
O corpo magro.

Frequências absurdas.
Sem fim.
Me desfaço.

Erupções cutâneas.

Ignora o frio e me usa para se aquecer.
Enrolados, pernas e braços.
O banco preto de couro falso.
O teto sem forro.
Tudo se consome.
Se transforma naquela erupções cutâneas.
Causada pelo sol da Bahia.
E as mãos delicadas que seguram nosso abrigo.
Mesmo dormindo.

Tão diferentes.
E por isso tão divino.
No meio da madrugada: "Comece a se acostumar com a paz."
Meu peito infla.
Plenitude.

Miséria

Caro Sr. A. A.,

Boa tarde. Inicio pedindo-lhe desculpas pelo leve sentimento de repúdio que nutri pelo senhor nos últimos meses. Não tem nada a ver com o senhor, mas por razões outras que não interessam agora. Escrevo-lhe para ter uma conversa franca e atrevida, como de pessoas que não possuem nenhuma convivência, mas que sabem, pelo menos um pouco, um da vida do outro. Pouco sei sobre o senhor, é verdade. Li uma biografia, assisti um filme e uma palestra excelente, na qual, inclusive, tive o prazer em ajudar com o processo de digitalização das fotos que foram exibidas pelo projetor da universidade onde tudo ocorreu. Mas, voltemos ao que eu pretendo falar. Durante algum tempo, ouvi repetidas vezes aquela frase que o senhor escreveu para sua namorada Genica Athanasiou, creio eu, onde o senhor falava sobre amar também as misérias de quem está ao nosso lado. Saiba que em nenhum momento discordei disso, pois amar envolve sempre quatro pessoas, como disse uma amiga: um príncipe, uma princesa, um sapo e uma bruxa. Agradeço-lhe por ter tratado isso com essas palavras, falado em miséria, principalmente se levarmos em conta o peso dessa palavra, seu sabor acre.
Hoje, no entanto, fui abatido por um sentimento estranho, pois me perguntei se o senhor alguma vez, ainda em vida, foi amado pelas suas misérias. Só posso crer que não. É o que sua queixa me indica. E é estremamente frustrante saber que justo o senhor, autor dessa idéia, não tenha sido amado pelo que é, ou foi. Sou testemunha, não nego, do amor que nutrem hoje pelo senhor, pela admiração incondicional pelas suas obras e e idéias. Mas paro para me perguntar como deve ter sido dura sua vida nesses extremos de admiração e repúdio que a biografia que li ao seu respeito indicam. Mendigar ópio pelas ruas, passar anos dentro de uma instituição psiquiátrica deformando-lhe o lindo rosto, ser tratado como um pária, ser censurado inúmeras vezes, ter o casamento cancelado pelos pais de sua noiva pela simples menção de seu nome. Ter um câncer no ânus. Creio que o senhor cheirava mal no final de sua vida. As pessoas cheiram mal com certas doenças, senhor. Me desculpe, mas é verdade. E, como disse um dos meus mestres, ninguém tem dignidade após 48 horas sem tomar banho. Infelizmente.
Só há algo que pode tolerar essa higiene toda pregada pela modernidade: amor. Mas um amor vivo, um amor que olha nos olhos quando as máscaras caem e um rosto cheio de chagas é exibido. A liberdade é negra, como o senhor mesmo disse. E é preciso dessa liberdade para que se retire todas as máscaras, o falso véu da inocência. No entanto, esse amor é amarelo como um girassol. Não é vermelho e pulsante como uma paixão que cega, mas plácido. Ele pulsa com mais precisão, em uma frequência baixa, forte e muito mais constante. Esse amor não tem nenhuma relação com uma competição de misérias, onde se aposta quem sofre mais e os gritos são a estratégia. A única. Esse amor deve ser compartilhado por quem tira a máscara e por quem limpa as feridas por debaixo do latex. Esse amor se constrói com calma, paciência e respeito. Respeito. É preciso respeitar a saída de cena, a devolução do tirso e das uvas a Dionísio. Sem zombarias. Saber quando se é grato a deuses antigos e quando não é hora de louvação. Os deuses gregos servem aos homens, não o contrário.
Posso te dizer que hoje eu sei o que é isso. Sei o que é alguém amar minhas misérias. Sei o que é amar a miséria dos outros. E posso lhe dizer que essa sensação é única. Ser amado, por tudo, pelas misérias. Não se trata de aturá-las sempre, mas de buscar palavras e atitudes bâlsamicas, de criar raízes grossas e reformar as partes mal acabadas dessa casa. Eu recebi um convite para a paz. Recebi e não soube abrir esse presente. O tempo me deu a chave para que eu abrisse essa caixa de pandora negativa, que suga para dentro todo o mal.
Agradeço-lhe, sei que suas palavras se afinarão cada vez mais e mais. Principalmente para aqueles que as repetem quase como uma súplica. Sabe, estou relendo As Flores do Mal de seu conterrâneo e tudo tem um sabor diferente agora. Os anos nos tiram a sensibilidade da línguas, mas aguçam o gosto das palavras. Repetí-las traz, inevitavelmente, sintonia.

Saudações,

D.

Véu

Esse véu não cai bem em ninguém e quando me vejo o usando não mais sinto raiva mas apenas esse choro que brota sem controle apontando erros erros e mais erros. Essa repetição, sempre em três, pouco tem a ver com retoques estilísticos, mas com a tentativa de expurgar isso tudo de uma vez. Vem como uma santíssima trindade capenga e desbotada, como aquele homem que tirava fotos na frente daquela igreja naquele ano já longínquo. Meu deus. Me lembro que já me falavam com aquele sotaque da califórnia que meus olhos mostravam que eu tinha visto muito e isso foi tempos atrás. Naquele sotaque do norte da califórnia e tudo o que eu desejava era voltar pra casa e ver mais nada. Deitar na minha cama e desaparecer. Mas eu ainda vi mais e mais e mais. Três.
O véu, ia me esquecendo. Ele é feio e tem cheiro de mofo. E quando o coloco na cara ele sufoca com esse odor podre de tempos imemoriais. O tempo. O passado. Queria eu me agarrar nele, ficar me desfrutando e selecionando coisas colocadas em meu armário. Mas não é nada disso. Leio alguém me falando que devo ter usado Botox. Tenho raiva dessa síndrome de peter pan (pedra, pedro, lobo) que me faz sentir vontade de ter um filho ao ouvir billie jean e me lembrar dos meus cinco anos, tentando ver o clipe na tela da televisão pequena do restaurante do meu primo mais velho. Velho. Trinta e um anos e me sentindo com quinze e noventa ao mesmo tempo. Deslocado. O véu. O véu me gruda na cara novamente. Tiro ele sufocado, ele me faz chorar copiosamente. Ruidosamente.
Converso por essa tela no qual escrevo tudo isso e ela me conforta. Fala o quanto tem medo dessas bobagens. Do tamanho desse meu coração bobo e da forma desajeitada que tenho para equlibrá-lo dentro do meu peito colorido. Tenho um tigre preso em uma cabaça, ele se contorce no espaço pequeno. Ele ruge com o cheiro do véu.
Esse véu da inocência não me cabe. Ele é horroroso.

Tura Satana

Me golpeia na boca do estômago.
Como em um filme B.
Sem técnica.
Só dor.
Não entende o resultado.
Nem a sequência lógica do roteiro.
Grita como um louco.
Memento.

Tiro essa máscara.
Gosto do que vejo.
E está de bom tamanho.
Na verdade, tamanho perfeito.
Alta costura.
Como se fosse aquela costureira chinesa.
Daquele filme.
Em que liam Balzac!
(Cristo, como tudo pode estar nos meus olhos
e fiquei cego e não vi)
Balzac! Seu balzaquiano de merda!

Coloco minha máscara de macaco.
Dionísio, avoé!
Lacro essas portas.
Não há mais como entrar.
Viro um templo.
Portas maciças.

O que guardo dentro de mim é ouro.
Gozo litros com meu caralho imenso em diversas bocetas gostosas ávidas por andarem no meu carro importado e sentirem o meu cheiro de perfume francês e da minha porra que jorra grossa.
Vejo uma propaganda de carro e sei que falam minha língua.
Me sinto mais branco, mais jovem, mais homem.
Gozo grosso deixando esse mundo um pouco mais como ele sempre foi. Mijo na minha rua. Marco meu território.
Abra-me.
Mostre as chagas abertas.
Estique o tempo.
Ensina-me a cautela.
Mostra-me o alvo do meu cuidado.

Me beija.
Mais uma vez.
Tudo doce.
O que eu tenho é simples de explicar.
E dificílimo de ver.
Mas você abre mais os olhos.

So se é grato quando se tem gratidão.
O resto é formalidade insuportável.
Cobrança tola.
Não há como ser de outro modo.
Jamais.
Me livro de todas as máscaras que me colocaram.
Nunca estiveram lá.
Acreditei me barbado quando meu coração batia imberbe.
Mergulho em mim e choro um choro morno.
Sem venenos.
Sem cobranças.
Realmente limpo.
Querendo-me assim.
Reencontro-me mais puro e doce.
Apagando os trocadilhos com meu nome.

Aqueles três relógios que se quebraram em minhas mãos...
Sou grato a tudo.
Sou grato aos rótulos aburdos que recebi.
E as máscaras que acabei usando.

Sou um macaco metamorfoseando-se.
De chimpanzé para um macaco japonês.
Mergulhado em piscinas vulcânicas.

Não esqueço minha história.
Ela não se cobre com tintas de nenhuma espécie.
Nem me esquecendo de amigos queridos.
Pessoas que amarei por toda a vida.

As palavras têm agora um novo sabor.
Olho para frente e vejo o que plantei anos atrás.
Crescendo em flores amarelas.
Imunes aos narcóticos que se revelam amargos.
Têm gosto doce.
Têm cheiro bom.
Acordo e vejo essas paredes de blocos cinzas.
Privilegiado.
Me sinto em casa novamente.
Mas com um paladar mais apurado.
Com todos os sentidos mais aguçados.

Abro-me para o futuro.
Sabendo que
Tentar esquecer o passado é estúpido.

Mais uma vez, obrigado Brecht.

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