Ontem eu morri um pouco.
O oxigênio que eu inalei
Incessantemente
Me deixou um pouco
mais distante
desse mundo.
Eu, estirado,
não encontrei palavras.
Elas me abandonaram.
E a única coisa que
pude pronunciar
Foi que não havia mais
palavra alguma.
Eu morri um pouco
Deitado no chão
Fitando o escuro e
a ausência esmagadora
da pequena morte,
como diriam os franceses.
Ali eu morri
de forma mais intensa
Como se todo o zinco tivesse
Abandonado o meu corpo.
E vi
Que as libações
Ao Rumor
Deveriam ser
feitas com
água
comprada na loja
da frente.
Ali eu me despedi
De um Outro
Que se esvaiu
No Dourado
Em cima da mesa
Perto dos retalhos.
Tenho mania de ler encartes de cds. Adoro me atentar à arte, mas é sempre a ficha técnica, letras ou outros textos que mais me atraem. Recentemente caiu em minhas mãos um gratest hits do Red Hot e, inevitavelmente, comecei a lê-lo. Me chamou a atenção um texto escrito pelo Flea, onde ele falava a respeito da longevidade da banda e de como ela (a longevidade) chama atenção de outras pessoas, que sempre perguntam como eles ainda conseguem. A resposta, segundo Flea, é sempre a mesma: eles estão sempre focados no primordial, ou seja, a música, e essa ainda proporciona MUITO campo para pesquisar, garimpar, remexer. Há muita possibilidade, há um universo ainda a ser descoberto. Isso tudo me leva a crer que, sinceramente, não há justificativa para tantos revivals, já que há tanto sobre o que se debruçar. Fiquei tocado pelo comentário, porque meus olhos se abriram para a mesquinhez com que tratamos a arte em certos momentos. O artista deve ser devoto de sua arte, não estar acima dela.
No entanto, vivemos numa época onde a arte foi deixada para o segundo plano. Também vivemos numa época onde as pessoas se acostumaram a dizer que suas próprias vidas são obras de arte. Oscar Wilde classifica Jesus dessa maneira em seu De Profundis, afirmando que a obra de arte de Jesus teria sido seus passos pela terra. É clara a intenção de que isso fosse tratado como um elogio, não uma acusação a Jesus. Mas o século XX se encarregou de criar uma porção de ícones cujas vidas foram maiores do que suas obras vazias. Artistas como Marilyn Monroe e James Dean representam bem essa idéia do ídolo pós-moderno, um artista maior do que sua arte. É evidente que a obra é marcada pela experiência pessoal, mas o que vemos hoje em dia é a eliminação da necessidade da arte, seja ela como estágio ou fim. A arte pode ser deixada de lado, dando espaço para a experiência pessoal, sem nenhum intermédio.
Não serei o primeiro a afirmar que Paris Hilton é a cara da primeira década do século XXI. Ninguém conseguiu tão bem assumir esse papel de artista sem arte como ela. Não existe nada por trás de Paris Hilton. O que Paris Hilton faz é simplesmente ser Paris Hilton. Suas músicas (?) não são ouvidas. Seus filmes (?) não são assistidos. Ela está além da falta de pudor na correção digital, na maquiagem que os computadores proporcionam a música. Além de atuações duvidosamente repetidas até a exaustão. Paris Hilton é uma artista sem arte. Ela é uma pós-josefina, a cantora de Kafka.
No entanto, vivemos numa época onde a arte foi deixada para o segundo plano. Também vivemos numa época onde as pessoas se acostumaram a dizer que suas próprias vidas são obras de arte. Oscar Wilde classifica Jesus dessa maneira em seu De Profundis, afirmando que a obra de arte de Jesus teria sido seus passos pela terra. É clara a intenção de que isso fosse tratado como um elogio, não uma acusação a Jesus. Mas o século XX se encarregou de criar uma porção de ícones cujas vidas foram maiores do que suas obras vazias. Artistas como Marilyn Monroe e James Dean representam bem essa idéia do ídolo pós-moderno, um artista maior do que sua arte. É evidente que a obra é marcada pela experiência pessoal, mas o que vemos hoje em dia é a eliminação da necessidade da arte, seja ela como estágio ou fim. A arte pode ser deixada de lado, dando espaço para a experiência pessoal, sem nenhum intermédio.
Não serei o primeiro a afirmar que Paris Hilton é a cara da primeira década do século XXI. Ninguém conseguiu tão bem assumir esse papel de artista sem arte como ela. Não existe nada por trás de Paris Hilton. O que Paris Hilton faz é simplesmente ser Paris Hilton. Suas músicas (?) não são ouvidas. Seus filmes (?) não são assistidos. Ela está além da falta de pudor na correção digital, na maquiagem que os computadores proporcionam a música. Além de atuações duvidosamente repetidas até a exaustão. Paris Hilton é uma artista sem arte. Ela é uma pós-josefina, a cantora de Kafka.
Caixa Cultural, Praça da Sé.
O cheiro de cocô de gente é insuportável. O sol e o vento contribuem com a fedentina. Um monte de mendigos aglomerados. Nossos passos de classe média são certeiros. Paramos para perguntar onde fica o prédio que procuramos. Me sinto mais seguro lá dentro, longe do cocô e das mãos sujas que pedem trocado. A classe média tem medo. A "História de Cândido Urbano Urubú" já havia me ensinado isso, mais de vinte anos atrás.
Uma exposição sobre a pobreza. No segundo andar. Acho tudo lindo. Acho tudo triste. Depois fico pensando na minha hipocrisia. Eu teria nojo de estar em todos aqueles lugares, tirando aquelas fotos. Lá fora sujeira e miséria também. Estou protegido. Estou protegido pela fotografia, que me poupa de sentir o cheiro do que se fotografa. Estou protegido pelas catracas invisíveis de Baumann, que impede que os mendigos invadam esse lugar.
A classe média tem medo.
Uma exposição sobre a pobreza. No segundo andar. Acho tudo lindo. Acho tudo triste. Depois fico pensando na minha hipocrisia. Eu teria nojo de estar em todos aqueles lugares, tirando aquelas fotos. Lá fora sujeira e miséria também. Estou protegido. Estou protegido pela fotografia, que me poupa de sentir o cheiro do que se fotografa. Estou protegido pelas catracas invisíveis de Baumann, que impede que os mendigos invadam esse lugar.
A classe média tem medo.
Eu redescubro os gostos em você.
Me sento na mesa e tomo um café.
Em uma velocidade que não é minha.
Sinto o gosto dos dias.
Esqueço o cinza de sua ausência.
E penso como uma criança sonha.
Sonho como pensa uma criança.
Eu matei aquele animal hidrofóbico.
E me livrei da carcaça horrível.
Você apontou para o sangue debaixo de minhas unhas.
Eu mergulhei em águas quentes.
Sonho como a criança pensa.
Me sento na mesa e tomo um café.
Em uma velocidade que não é minha.
Sinto o gosto dos dias.
Esqueço o cinza de sua ausência.
E penso como uma criança sonha.
Sonho como pensa uma criança.
Eu matei aquele animal hidrofóbico.
E me livrei da carcaça horrível.
Você apontou para o sangue debaixo de minhas unhas.
Eu mergulhei em águas quentes.
Sonho como a criança pensa.
O homem se sente sozinho com suas criações, pois não há outro ser que possa entendê-las. Todas as idéias, músicas, histórias, civilizações, invenções, enfim, tudo o que é produto da cultura humana não tem nenhum sentido além do olhar de seu próprio criador. E talvez isso o angustie demasiadamente, ao ponto em que ele é obrigado a inventar seres que o entendam, assim como as crianças criam amigos imaginários para apaziguar a solidão.
O homem se debruça sobre os símios buscando, enfim, a similaridade. Cria softwares, computadores, estabelece novos jogos de linguagem. Os símios respondem ao homem sabe-se lá o quê. O homem cataloga os cães como únicos seres que sentem satisfação em agradá-lo. O homem não se cataloga como ser que quer manter contato com qualquer animal. Qualquer um. Pobre coitado.
É possível que não só o homem, mas toda sua produção sejam consumidos pela insaciabilidade do oxigênio, sem nunca termos recebido um olhar que mostrasse um pouco mais de inteligibilidade sobre a manifestação cultural humana. Talvez nunca toquem aquele disco do Chuck Berry, dentro daquele satélite que viaja próximo a Saturno.
Só o oxigênio salva.
O homem se debruça sobre os símios buscando, enfim, a similaridade. Cria softwares, computadores, estabelece novos jogos de linguagem. Os símios respondem ao homem sabe-se lá o quê. O homem cataloga os cães como únicos seres que sentem satisfação em agradá-lo. O homem não se cataloga como ser que quer manter contato com qualquer animal. Qualquer um. Pobre coitado.
É possível que não só o homem, mas toda sua produção sejam consumidos pela insaciabilidade do oxigênio, sem nunca termos recebido um olhar que mostrasse um pouco mais de inteligibilidade sobre a manifestação cultural humana. Talvez nunca toquem aquele disco do Chuck Berry, dentro daquele satélite que viaja próximo a Saturno.
Só o oxigênio salva.
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