Fera.
Grita sem parar, já cansada, mas insistente. Corre, besta, sangue ressecado por entre os dentes amarelos e afiados. Carne podre no estômago. Corre, besta, sempre. Sem parar. Cansada, mas insistente. Corre por entre campos, enormes, gigantescos, sem tamanho. Corre, besta, apressada. Para para respirar. Sempre cansada, mas insistente. Corre, pois foi isso que lhe foi ensinado. Pelas palavras, pelos grunhidos, pelos gestos. Pelo dizível, que insistia-se em indizível. Pelas feras mãe e pai. Pelo covil onde disputava nacos de carne com outras feras. Todas iguais e vítimas de suas próprias bestialidades. Grita. Corre. Para. Os campos são vastos. Para debaixo de uma árvore. Relaxa. A fome de carne e sangue apazigua rápido. Aguça o faro. Sente odores esquecidos. Agita-se. Seus pêlos caem. Ajeita a coluna. Estica-se. Transforma-se em homem. Depois em criança.
Já não é mais o camelo.
Já não é mais o leão.
Mata o dragão e queima suas escamas.
Criança.
Ela ri.
Fera.