Passa a mão nas canelas machucadas. Não sente nenhuma falta da corrente e da bola de ferro. Ridículo pensar isso. Sentir saudade daquela merda de vida que um condenado leva. Dói pensar na possibilidade de um algum tipo de saudosismo, de desejo de volta ao cativeiro. Sabe o peso dos seus crimes, mas não se daria nenhum dia a mais de pena.
Reencontro
Encontra-se
lá dentro
consigo mesmo

pega nas ancas
magras.
e encontra
o chão.

fresco e de pedra
polido e acolhedor.
as pernas tremem
lembrando do mar.

logo o marujo
resolve ficar em terra firme

o tremor do mar
já não o encanta mais.
Tenta reconstruir os fatos
Procura mais uma vez
Raspa o peito
Para se certificar
- Tem certeza que é verdade.
Ouve uma voz já esquecida
Mensagens de um morto
Lembra que o dono da voz
Já foi a voz dele mesmo
Hoje estranha a ausência
Do silêncio.
Acha que os sons são lendas
Que as cores não existem
E que a testa ficará maior
No ano que vem
E ainda no outro.
Pequeno e escondido, como todo bom diabo, maquinava outra maluquice, que só ajudaria a piorar a sua asma. Sentava pelado, com o pau de fora, só esperando que alguém o surrasse. Gostava de provocações, pois assim era sempre agredido. E amava queixar-se de suas escoriações.

Carniça

O óbvio me causa calafrios.
Penso no desenrolar de tudo e o que mais assusta é a maneira inexorável com a qual sempre se caminha para os finais mais evidentes. Os sonhos infantis, as revoltas adolescentes e a passividade adulta. Tudo perpassado por esse gosto humano pelo divino.
Continuo vendo tudo de fora, por mais que tenha tentado ver de dentro. Mas já faz tempo que aprendi viver olhando, como um urubu, a carniça horrorosa. E eu como apenas para satisfazer a fome. Pois essa carniça não me causa nenhum tipo diferente de sensação na língua. Só fome.
E eu sonhava em ser faquir...
Tudo tão óbvio. E deprimente até a medula.
Pessoas, pessoas, pessoas... Progressões aritméticas são menos óbvias.
Um tapa na cara de gosto acre: "nunca espere por gratidão. Ou ela está presente ou não existe."
vou me acostumando com minha pequenez
Tenho uma inveja patológica das coisas mais medíocres.
Ainda invejo aquele eu que não existiu
Lavando o carro do pai em um domingo de sua adolescência.
- Desejo um paladar menos sofisticado.

Invejo as pessoas que se demonstraram mais ordinárias.
Nada além de coelhos, formigas ou cachorros.
Todos travestidos de gente.
Rindo um sorriso que rasga a boca.
Sincero.

Um deus-vagina, aventuras no estrangeiro, abraços de pessoas agradecidas pela minha música.
E eu pensando no Programa Sílvio Santos.

Abismos e o flashbacks

Parece Ayahuasca. São só memórias. Elas vieram todas para me avisar que a dor passou.
Sou a modelo desempregada. Com uma cicatriz no rosto. Apalpando os sulcos na pele. A pele flácida e plastiforme, típica de uma cicatriz. Já conformada.
Olho para dentro. Para aquele abismo de que tanto falava. Me assusto com as proporções. Me orgulho de saber que estou vivo. Apesar de saber que, hoje, eu não pularia ali dentro novamente.
Minhas pernas doem, desgastadas pelo impulso. Olho apavorado. Não acredito na mnha imprudência. Mesmo em terra firme, ainda não consegui controlar os tremores causados pelo cansaço.
Caminho. Sei que com a distância não verei nem mais sinal do abismo.
O que seria tragédia tempos atrás me fez sorrir doce hoje pela manhã. suspiros e abreviações. repetições que nos encantam. gritando nomes que explodem nos lábios daquela boca que fala mole. eu teria odiado ver tudo isso. hoje eu sinto um alívio imenso, pois sei que não sou só eu que aprendi certas lições.
Vivo esses dias que se repetem. Se repetem com a promessa de que se repetirão mais outras inúmeras vezes. Espero que seja assim. Não é o dia da marmota, nem a espera pelo Godot. Mas uma estabilidade que agora faz sentido, que agora causa prazer.
Hoje vi que não fui só eu que entendi as lições. Hoje eu sei que essas flores amarelas não cairam todas no chão por acaso, justo nessa época do ano.
E aqui ao meu lado eu vejo girassóis.
Maiores, mais amarelos.

Patologia

Escolha com gosto a patologia da semana.
Folheie cuidadosamente. Decore o nome do que irá doer.
Abra os livros e se debruçe sobre as chagas que não fedem.
- Essa distância permitiu criar uma casa dos monstros.
Mas quando menos esperava, viu que as assombrações eram todas reais.

Escolha o nome de sua patologia.
Esconda-se.
Sempre.

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