Hilda Hilst

A Obscena Senhora D. olhava para seu amante e perguntava o que era tudo. Tudo. Não entendia nada, tudo causava estranheza. Sexo, os olhos, as pernas, o ir e vir. Seus sessenta anos não assegurava certeza alguma, só dúvidas e mais dúvidas. Ela olhava para o amante de longa data e não sabia quem ele era. A Senhora D é de uma tristeza gigante. É horrível olhar com toda atenção e não ver nada. É triste. E as pessoas assim se condenam a uma vida triste. Não reconhecem as coisas iguais e nem diferenciam as diferentes.

Hilda Hilst entrou em minha vida como uma curiosidade, por alguém ter mencionado pornografia e poesia na mesma frase. Coloquei meus pés nessa água e fui sugado para dentro. Logo eu estava fazendo a iluminação de uma montagem de um texto dela. "Nada é por acaso". Não, esse não é o nome da texto, mas o provável nome do capítulo da minha vida que Deus tem dirigido no momento. A peça era "Estar sendo ter sido".

A grana gasta no jantar comemorativo da estréia da peça foi maior do que o cachê que faturei nas poucas apresentações que se seguiram, ali no Oficina.

Amo Hilda Hilst por saber que eu não a suportaria de perto. Amo essa distância que deve haver entre nós e nossos ídolos. E amo essas coisas opostas que nos ligam durante muito tempo. Por uma vida.

Aprendi a me ver livre de venenos. Bebendo leite toda hora por causa do cálcio. Evitando café. Largando o THC, o álcool. Fiz isso na hora que algo em mim me falou para fazer isso. Hilda Hilst desaprovaria tudo isso. Tenho certeza. Não o fato de eu fazer o que meu coração manda, mas desfrutar essa sobriedade que tem se mostrado mais alucinógena do que qualquer coisa. Eu mergulhei dentro de mim e descobri monstros e heróis. Figuras que não acreditava que existiam. Tirei tudo para fora. Chorei como uma criança por dias, destilando tudo o que eu sentia. Vi um monstro horrível que fere, vi também chagas enormes, que não sabia que existiam. Fiz tudo isso quando me vi necessitado, como alguém que se converte apenas no momento da dor. E não tenho nenhum pudor em dizê-lo. Eu sou isso, humano. E sei que são poucas as pessoas que realmente podem lidar com um rosto humano sem as carnes. Na maioria das vezes todos correm para o castelo com tochas na mão, exigindo a vida do monstro.

A Senhora D. é um monstro em um castelo. No vão da escada.

Conheci um editor de seus livros. Ele me falou que, todos os dias, eles, o editor e a escritora/poeta, bebiam e choravam. Isso me lembra minha família. Eles bebem e choram. E me cobram por não ligar. Justo eles, que nunca me ligaram. Que só cobram. É lógico que nenhuma das minhas tias bêbadas escreve como Hilda Hilst. Acho que não, a não ser que o façam em segredo. Mas acho que chegando em casa elas só conseguem se deitar e dormir um sono triste. Bêbado. Elas mostram o rosto purulento sem nenhum pudor. E eu viro o rosto. Sem nenhum tipo de remorso. Pois quando eu me olho no espelho eu sei quem está do outro lado. E sei que essa pessoa é vacinada.

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