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Aquele bêbado na praça tinha razão. Olhava para o espelho que tinha nas mãos e exclamava em alto e bom som, como só os bêbados conseguem, que ele via olhos maravilhosos. Quando se vê a maravilha dos próprios olhos o mundo parece se ajeitar como o cosmo grego. Tudo em harmonia. Depara-se com a perfeição. E essa perfeição que se percebe em tudo o que é imperfeito me faz subir pelas entranhas uma falta de ar que engasga. A vida vai transbordar através da minha garganta a qualquer segundo.
Olho com outros olhos essa pele e esse cheiro que me diz tanto. Olho o cheiro e morro um pouco. Pequena morte. Foram anos para apurar os sentidos a esse ponto. Anos para deliciar esse transmutar-se da alma, que se espalha por esses quartos. Engasgo, me refaço com um gosto mais forte. Lambo-lhe o rosto, esperando que veja que não sou nada além desse corpo que palpita e quer morrer mais um pouco.
Seu nome explode em rostos familiares, em sorrisos e em cumprimentos. Mas isso não dá conta nem da superfície. Essa superfície que desbravo com minhas narinas, como um cão farejador. As curvas são douradas, mas esse dourado é difícil de se ver. Requer treino, prazeroso sim, mas que exige tempo para que a visão se abra no meio da testa e que se sinta essa pureza transcendente.
Não escolho as palavras e atropelo meus sentimentos todos sobre o seu colo. Uns nos outros. Tudo sai pra fora com esse jeito bobo e prolixo de respirar cada momento. Redescubro que respiro.
Pauso e olho. Miro para dentro desses olhos fechados e vejo o mundo com outras cores.
Para te ver mulher eu tive que matar um pouco da criança. Olhos maravilhosos.
Dilato as pupilas.
As veias todas se dilatam.

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