Silêncio

Sibila sonoro sem som
Só sacolejos, sem saída
Sons somam seriedade.
Senhora subtrai substâncias sadias.
Sonora
Sempre.
Silêncio.
Somente sei sim.
Sabido silêncio
silencia-se sagaz.

19 - 32

Fechado para contabilizar a merda toda.
Volto quando meu contador permitir.
Enquanto isso, fiquem com meus passos de ballet.

Cálculo II

Perdi o medo.
Abri os olhos.
Fechei a boca.
Esperei o golpe.
Caí de quatro.
Sentei na mesa.
Chorei o fim.
Planejei o início.
Perdi o medo.
Refiz a vida.
Quantas vezes?
Perdi a conta.

Senti meu peso.
Eu não devia estar ali.
Pesava demais.
Impedia o vôo.
Refiz a vida.
Quantas vezes?
Perdi a conta.

Um pedro triste

Se soubesse interpretar
meu riso
meu silêncio
meu gozo
meu medo
meu sonho
meu olho vermelho
meu suspiro agudo
Talvez não tivessemos chegado tão longe
Talvez não tivessemos descoberto que somos estranhos um ao outro.
Como aqueles casais
que não trocam nenhuma palavra
durante todo o jantar.
Me cutuque quando eu quiser voltar ao ventre
Quando eu quiser, mais uma vez, desistir de tudo.
Da vida
Do meu nome.

Para D.M.

O verdadeiro amigo sabe a hora em que tem que se calar.
Sabe que o silêncio pode ser mais valioso que um monte de fofocas quentinhas.
Sabe respeitar quando o outro prefere ouvir a voz do nada.
Quando o outro escolhe ouvir o sussuro do vento.

Concreto

Meu amor é o concreto. Fico feliz de saber que o Canal do Panamá, com quase cem anos de idade, ainda possui partes de concreto que não secaram. Meu amor é o concreto. Odiava ouvir "é o que tem para você". Difícil é levantar-se. Criar paredes e mais paredes de concreto. É isso que me importa. Construção. Já havia dito isso. O concreto demora muito para secar nesse mundo líquido. Meu amor é o concreto. Pelo que se cultiva, se arruma, se acerta. Eu subo em cima da casa. Verifico as juntas. Meu amor é o concreto. Não moro em cavernas. Não acredito em sociopatas com perfil em sites de relacionamento. Meu amor é o concreto. E eu quero mais. E mais.
A culpa é do mundo. Não de suas mãos que ainda empunham o martelo. Nem mesmo de seus golpes constantes naquele pedaço de concreto, outrora notadamente duro e inquebrável. A culpa é do mundo, que lhe ofereceu sabores díspares. Enfiou-lhe tudo na boca sem encontrar resistência, misturando paladares e lhe dando um hálito horrível de discórdia e paradoxo.
A culpa é do mundo. E se o mundo, sabe-se lá por quais motivos, reorganizasse todos os cacos que jazem no chão, não titubearia em desferir golpes ainda com mais força, sob essa peça moída, pela qual chora em silêncio e com ódio.

der Glatzkopf (ou como me tornei a Mãe Dinah)

Afundava os olhos nos dicionários ensebados concentrava-se na letra g goi gentio gaijin chão base sustentação e bonitinho gostava do g tinha gosto de boceta gostava de boceta também gostava de boceta suja gostava de puxões violentos no cabelo gostava de ver vídeo de bukkake sabe bukkake bukkake é uns japoneses esporrando na cara de umas japonesas que ficam paradas só levando gargamelada quente na beiça esporrada na cara quietinhas sem dizer nada parece que a graça está em fazer de conta que nada está acontecendo.
Fica esperando o dia em que seu par perfeito aparecerá sonha com isso desde criança sabe o que o destino lhe reserva sabe que é só entregar tudo na mão de deus de santo antônio da vidente amarração para o amor e como num passe de mágica aparecerá a tal da pessoa Idealizada tem tudo preparado para a ocasião roupa perfume anel revólver e munição vai enfiar dois tiros na cabeça do seu amor.
Tem asco de pele macia repudia com violência toda e qualquer demonstração de juventude adora ver a pele dos velhinhos esfarelando gosta de halitose catarata osteosporose silvio santos esquecimento e nostalgia é perseguido por obscenidades cheias de vigor e brilho aprendeu a gostar da noite pois já não conseguia viver com a luz do sol agora gosta da madrugada gosta da hora em que o sono enfim venceu.
Eu uso lente com vários focos.
Focos diferentes.
Mas focos.

E isso está me fazendo cada vez eu mesmo.
Múltiplo.
E único.
Já não era mais a falta do sal na superfície que o deixava desolado. O que lhe tirava o ânimo era a maneira intermitente, mas inexorável, com que a água lhe sulcava a face, de maneira cada vez mais profunda. Entendia agora o porquê já não temia esquecer o gosto do sal que antes lhe temperava a cara. Era o lento descarnar das faces que deveria temer. Amedrontar-se com o simples bater na porta das lembranças que não conseguia defenestrar de sua memória de homem velho.
"Saudade quero ver pra crer
Saudade de te procurar
Na vida tudo pode acontecer
Partir e nunca mais voltar

Como um bom barco no mar
Eu vou, eu vou
Como um bom barco no mar
Eu vou, eu vou"

Transgressão em série

Fale que você tem problema.
Ninguém te entende.
As palavras não dão conta
(ótima desculpa para a sua incapacidade de se expressar)
Ninguém te entende.
Tão sozinho.
Peninha.
Coitado.
Num tem amigos.
Tem um monte de contato no Orkut.
Um monte de amigos para falar que num tem ninguém.
Um bando de acólitos criando coragem para ser sozinho.
Todos de mãos dadas para dizer que estão sozinhos.
Coloca a foto com cara de triste na internet.
Um monte de amigos que ouvem você dizer que num tem amigos.
Tudo tão triste e no lugar.

Transgressões em série.
Um séquito ávido pela solidão.
Um monte de idiotas com depressão de fábrica.

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