Caro Sr. A. A.,
Boa tarde. Inicio pedindo-lhe desculpas pelo leve sentimento de repúdio que nutri pelo senhor nos últimos meses. Não tem nada a ver com o senhor, mas por razões outras que não interessam agora. Escrevo-lhe para ter uma conversa franca e atrevida, como de pessoas que não possuem nenhuma convivência, mas que sabem, pelo menos um pouco, um da vida do outro. Pouco sei sobre o senhor, é verdade. Li uma biografia, assisti um filme e uma palestra excelente, na qual, inclusive, tive o prazer em ajudar com o processo de digitalização das fotos que foram exibidas pelo projetor da universidade onde tudo ocorreu. Mas, voltemos ao que eu pretendo falar. Durante algum tempo, ouvi repetidas vezes aquela frase que o senhor escreveu para sua namorada Genica Athanasiou, creio eu, onde o senhor falava sobre amar também as misérias de quem está ao nosso lado. Saiba que em nenhum momento discordei disso, pois amar envolve sempre quatro pessoas, como disse uma amiga: um príncipe, uma princesa, um sapo e uma bruxa. Agradeço-lhe por ter tratado isso com essas palavras, falado em miséria, principalmente se levarmos em conta o peso dessa palavra, seu sabor acre.
Hoje, no entanto, fui abatido por um sentimento estranho, pois me perguntei se o senhor alguma vez, ainda em vida, foi amado pelas suas misérias. Só posso crer que não. É o que sua queixa me indica. E é estremamente frustrante saber que justo o senhor, autor dessa idéia, não tenha sido amado pelo que é, ou foi. Sou testemunha, não nego, do amor que nutrem hoje pelo senhor, pela admiração incondicional pelas suas obras e e idéias. Mas paro para me perguntar como deve ter sido dura sua vida nesses extremos de admiração e repúdio que a biografia que li ao seu respeito indicam. Mendigar ópio pelas ruas, passar anos dentro de uma instituição psiquiátrica deformando-lhe o lindo rosto, ser tratado como um pária, ser censurado inúmeras vezes, ter o casamento cancelado pelos pais de sua noiva pela simples menção de seu nome. Ter um câncer no ânus. Creio que o senhor cheirava mal no final de sua vida. As pessoas cheiram mal com certas doenças, senhor. Me desculpe, mas é verdade. E, como disse um dos meus mestres, ninguém tem dignidade após 48 horas sem tomar banho. Infelizmente.
Só há algo que pode tolerar essa higiene toda pregada pela modernidade: amor. Mas um amor vivo, um amor que olha nos olhos quando as máscaras caem e um rosto cheio de chagas é exibido. A liberdade é negra, como o senhor mesmo disse. E é preciso dessa liberdade para que se retire todas as máscaras, o falso véu da inocência. No entanto, esse amor é amarelo como um girassol. Não é vermelho e pulsante como uma paixão que cega, mas plácido. Ele pulsa com mais precisão, em uma frequência baixa, forte e muito mais constante. Esse amor não tem nenhuma relação com uma competição de misérias, onde se aposta quem sofre mais e os gritos são a estratégia. A única. Esse amor deve ser compartilhado por quem tira a máscara e por quem limpa as feridas por debaixo do latex. Esse amor se constrói com calma, paciência e respeito. Respeito. É preciso respeitar a saída de cena, a devolução do tirso e das uvas a Dionísio. Sem zombarias. Saber quando se é grato a deuses antigos e quando não é hora de louvação. Os deuses gregos servem aos homens, não o contrário.
Posso te dizer que hoje eu sei o que é isso. Sei o que é alguém amar minhas misérias. Sei o que é amar a miséria dos outros. E posso lhe dizer que essa sensação é única. Ser amado, por tudo, pelas misérias. Não se trata de aturá-las sempre, mas de buscar palavras e atitudes bâlsamicas, de criar raízes grossas e reformar as partes mal acabadas dessa casa. Eu recebi um convite para a paz. Recebi e não soube abrir esse presente. O tempo me deu a chave para que eu abrisse essa caixa de pandora negativa, que suga para dentro todo o mal.
Agradeço-lhe, sei que suas palavras se afinarão cada vez mais e mais. Principalmente para aqueles que as repetem quase como uma súplica. Sabe, estou relendo As Flores do Mal de seu conterrâneo e tudo tem um sabor diferente agora. Os anos nos tiram a sensibilidade da línguas, mas aguçam o gosto das palavras. Repetí-las traz, inevitavelmente, sintonia.
Saudações,
D.