Tenho mania de ler encartes de cds. Adoro me atentar à arte, mas é sempre a ficha técnica, letras ou outros textos que mais me atraem. Recentemente caiu em minhas mãos um gratest hits do Red Hot e, inevitavelmente, comecei a lê-lo. Me chamou a atenção um texto escrito pelo Flea, onde ele falava a respeito da longevidade da banda e de como ela (a longevidade) chama atenção de outras pessoas, que sempre perguntam como eles ainda conseguem. A resposta, segundo Flea, é sempre a mesma: eles estão sempre focados no primordial, ou seja, a música, e essa ainda proporciona MUITO campo para pesquisar, garimpar, remexer. Há muita possibilidade, há um universo ainda a ser descoberto. Isso tudo me leva a crer que, sinceramente, não há justificativa para tantos revivals, já que há tanto sobre o que se debruçar. Fiquei tocado pelo comentário, porque meus olhos se abriram para a mesquinhez com que tratamos a arte em certos momentos. O artista deve ser devoto de sua arte, não estar acima dela.
No entanto, vivemos numa época onde a arte foi deixada para o segundo plano. Também vivemos numa época onde as pessoas se acostumaram a dizer que suas próprias vidas são obras de arte. Oscar Wilde classifica Jesus dessa maneira em seu De Profundis, afirmando que a obra de arte de Jesus teria sido seus passos pela terra. É clara a intenção de que isso fosse tratado como um elogio, não uma acusação a Jesus. Mas o século XX se encarregou de criar uma porção de ícones cujas vidas foram maiores do que suas obras vazias. Artistas como Marilyn Monroe e James Dean representam bem essa idéia do ídolo pós-moderno, um artista maior do que sua arte. É evidente que a obra é marcada pela experiência pessoal, mas o que vemos hoje em dia é a eliminação da necessidade da arte, seja ela como estágio ou fim. A arte pode ser deixada de lado, dando espaço para a experiência pessoal, sem nenhum intermédio.
Não serei o primeiro a afirmar que Paris Hilton é a cara da primeira década do século XXI. Ninguém conseguiu tão bem assumir esse papel de artista sem arte como ela. Não existe nada por trás de Paris Hilton. O que Paris Hilton faz é simplesmente ser Paris Hilton. Suas músicas (?) não são ouvidas. Seus filmes (?) não são assistidos. Ela está além da falta de pudor na correção digital, na maquiagem que os computadores proporcionam a música. Além de atuações duvidosamente repetidas até a exaustão. Paris Hilton é uma artista sem arte. Ela é uma pós-josefina, a cantora de Kafka.

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