O cheiro de cocô de gente é insuportável. O sol e o vento contribuem com a fedentina. Um monte de mendigos aglomerados. Nossos passos de classe média são certeiros. Paramos para perguntar onde fica o prédio que procuramos. Me sinto mais seguro lá dentro, longe do cocô e das mãos sujas que pedem trocado. A classe média tem medo. A "História de Cândido Urbano Urubú" já havia me ensinado isso, mais de vinte anos atrás.
Uma exposição sobre a pobreza. No segundo andar. Acho tudo lindo. Acho tudo triste. Depois fico pensando na minha hipocrisia. Eu teria nojo de estar em todos aqueles lugares, tirando aquelas fotos. Lá fora sujeira e miséria também. Estou protegido. Estou protegido pela fotografia, que me poupa de sentir o cheiro do que se fotografa. Estou protegido pelas catracas invisíveis de Baumann, que impede que os mendigos invadam esse lugar.
A classe média tem medo.