Confusão

Ela me diz que sou um filho de uma puta, pois consigo tudo o que quero.
Isso me assusta. Vejo isso como maldição. Um toque do Rei Midas. E em pensar que foi Dionísio que quis lhe castigar. Estremeço. Penso que se eu não tivesse nada do que quero seria melhor. Sei que não. Sei que ficaria angustiado com a ausência. Mas é a exuberância que me faz baixar a cabeça quando é hora de olhar para cima e caminhar com o peito estufado. Tudo errado. Um grande equívoco.
Penso nele dançando e fazendo mais um de seus trocadilhos infames. Vale a pena tudo isso? Queria ter um sopro para lhe soprar tudo o que o torna agradável. Apenas para que ele conseguisse dormir em paz, em um horários que nós, medíocres, consideraríamos normal. Só queria que ele dormisse. Ele poderia se tornar o mais chato se fizesse isso.
Ela me dizia que eu pensava nos problemas do mundo. Ela tinha razão. Hoje eu sei o quanto é difícil eu cuidar dos meus próprios problemas. Tenta-se tudo nessa vida e são poucos aqueles que entendem. Também são com poucos que os desejos não irão se chocar. Me lembro daquela noite fria naquele sítio. Ele dizia que não adianta exigir gratidão de ninguém. E nessas horas discordo da minha leitura simplificadora de Wittgenstein. Talvez a linguagem seja mais do que o uso que damos a ela. Talvez exista processos mentais reais operando em cada sílaba que estala em nossa boca. Talvez um "grato" se torne um "grato", um "bom dia" em um "bom dia". Simples e complicado assim.
Penso nas minhas conversas com ele e como a minha vontade é ficar quieto para sempre. Não faz sentido prolongar o diálogo, pois é sempre essa conclusão que chegamos. Não se sustenta. Não conhecemos nada.
Penso NELA e tudo estufa dentro de mim. A olho e percebo que as coisas são bem mais simples do que parecem. Ela sorri, me esqueço da finitude de tudo. Vivo isso aqui. Sem cortes. Sem atalhos.
Só a presença.
E isso é o topo.

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