Dar um psicológico

Queriam que eu ficasse estudando o movimento REM nos olhos de um bando de gente idiota. Todos. Que eu ficasse registrando cada movimento, cada piscadela. Me ensinaram um método. Setas pra cima, pra baixo. Traços sublinhados ou quase invisíveis. O mundo em negrito. A dor em negrito.

Me deram um crachá bonito. A foto estava ruim. Opaca. Não me reconhecia, como era de se esperar. Riram uma vez e fechei a cara. Ri da foto de três pessoas que sorriram amarelo.
Fui promovido. Bebi até esquecer de tudo. Esqueci como deveria registrar os movimentos, mas logo me arrumaram um ajudante, um tipinho bem infeliz e esquecível, de uma cor estranha. Eu cuspia nele tudo que me incomodava no mundo, bem no rosto dele: o cheiro das pessoas no trem, o cheiro do trem. Cuspia todo café de coador de boteco na cara dele. Ele não reclamava. Pelo menos na minha frente. Ele me encarava rapidamente, depois baixava os olhos, indicando obediência, prestatividade, experiência. Nesse momento o amava, rápida e silenciosamente, pois parecia-mo perfeito, a quintessência da pós-modernidade. Psi-controlado.

Alguém havia, com certeza, dado um psicológico nele.

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